Cidadão de bem

 

O cidadão de bem é a favor de direitos humanos – contanto que sejam para humanos direitos.

O cidadão de bem critica corruptos e vai a passeatas contra a corrupção, embora sempre tente dar um jeitinho para suas coisas.

O cidadão de bem vota contra o PT, já que a alternância de poder é fundamental. Mas isso só num nível nacional, porque em São Paulo alternância de poder é mexer em time que está ganhando, afinal ainda somos a locomotiva do Brasil.

O cidadão de bem se mantém informado lendo a Veja, embora tenha preguiça de ler a revista toda e acaba por dar uma passadinha de olhos nos títulos e nas fotos.

O cidadão de bem é sensível a crimes. Como todos, detesta bandidos. Às vezes vê Datena escondido e pensa que ele é criticado só por falar a verdade.

O cidadão de bem é a favor da educação, sempre, mas critica os estudantes das faculdades de Letras, História, Geografia, Filosofia, Sociologia e Pedagogia, porque lá só tem vagabundo mamando nas tetas do governo.

O cidadão de bem é a favor da liberdade de expressão, mas critica manifestantes na Avenida Paulista e apoia ações autoritárias da polícia.

O cidadão de bem é a favor da pena de morte, porque bandido bom é bandido morto.

O cidadão de bem é religioso pero no mucho. Quando sua ideologia coincide com a da Igreja, ele utiliza o argumento religioso. Quando diverge, ele miraculosamente lembra que o Estado é laico.

O cidadão de bem não fala a palavra “câncer” pra não dar azar, mas faz piadinhas com a doença em Lula.

O cidadão de bem, se/quando pega ônibus, senta no banco preferencial e finge que está dormindo quando aparece um idoso.

O cidadão de bem diz que feministas são mal amadas, histéricas, lésbicas e vagabundas; diz que a causa delas é inútil, que homens e mulheres são apenas diferentes. As mulheres recebem menos? Meritocracia!

O cidadão de bem não é racista, e até tem um amigo negro, embora ele seja um pouco entojado.

O cidadão de bem não é contra homossexuais, ele só se sente um pouco incomodado quando gays ficam ao seu lado.

O cidadão de bem acha absurdo seus impostos irem para o Bolsa-Família (ou Bolsa-Vagabundagem?), e diz que agora os nordestinos só querem fazer filhos e não aceitam mais ser seus porteiros.

O cidadão de bem não tem preconceito contra nordestinos, só os acha um pouco ignorantes e malemolentes. O único nordestino que se salva é o Caetano, porque ele soube agarrar as oportunidades e vencer na vida.

O cidadão de bem é tão de bem que às vezes até sente uma pontinha de dó quando vê um mendigo, mas se alegra logo que nota que o dito-cujo tem dois braços e duas pernas e não trabalha porque é vagabundo.

Sobre a FFLCH

Às vezes eu fico de saco cheio de ir pra USP. Muitas vezes falto nas aulas. Não sei quantas vezes já amaldiçoei as pessoas da Letras e da FFLCH. A diferença é que as pessoas da minha faculdade que eu não suporto não são as mesmas que os “homens de bem” não aguentam; e aqui digo com o maior orgulho: nunca vou me enunciar como uma “cidadã de bem”.

 Não me incomodo com os maconheiros. Eles ficam no canto deles, não enchem o saco de ninguém. Não, pais de família, eles não vão oferecer maconha pro seu filho. Eles não vão corromper seu pupilo.

 Não me incomodo com os participantes do movimento estudantil, e, muito timidamente, é bem verdade, apoio-os. Em todos os meus anos de FFLCH, nunca vi uma decisão de greve ser desnecessária. Além disso, só se decide por greve quando não há mais opções. E disso vocês não sabem, “homens de bem”, porque vocês não comparecem às suas assembleias e nem conhecem seus Centros Acadêmicos.

 Não me incomodo com os funcionários grevistas, bastante concentrados no nosso prédio.  Não me incomodo com Brandão, com Tia das greves, com qualquer “baderneiro” que possa aparecer. Só quem participa de greves sabe como é penoso e cansativo o processo.

Não me incomodo em ficar sem bandejão, biblioteca e circular quando há greves. Porque isso é bônus pra mim, classe média. Se algum amigo que realmente (e pensem no significado de realmente) necessitasse deles fosse contra, talvez repensasse minha postura. Mas quem fica contra são aqueles que têm condições de comer na lanchonete de sua própria unidade, que nem circular usam, que têm condições de comprar/ xerocar livros.

Não me incomodo com o DCE (Diretório Central dos Estudantes) e com o CAELL (Centro Acadêmico). Posso divergir de algumas opiniões de seus membros, da linha seguida por uma gestão, mas reconheço que nada é mais importante do que estas entidades estudantis.

Aliás, não me incomodo com grupos de minoria lutando por seus direitos. Feministas, negros, homossexuais, todos têm espaço no nosso prédio. Claro que sempre tem os Monteirinhos Lobatos falando que são feminazis, gaystapo e ditadura negra. Mas tudo bem, eles até suportam porque isso é como um fardo pro homem branco.

E quando eu digo “não me incomodo”, o que eu realmente quero dizer é que eu gosto muito de todos esses grupos. Todos eles constroem uma FFLCH aberta, plural. Se você entrou na FFLCH de uma maneira e está saindo do mesmo jeito, provavelmente não gosto de você. Porque inclusive quem já entrou na FFLCH politizado sabe que mudou, sabe que amadureceu. E se você acha que continua o mesmo, não aprendeu nada com a FFLCH, e você me incomoda.

Também muito me incomoda quem encara a FFLCH como escola de línguas, e ainda acha ruim professor ser politizado. Quem chora porque atravessou a cidade e o professor não foi, e nem teve a consideração de mandar um aviso dizendo que estava doente. Quem diz que prefere a UNIP à USP por causa das greves (conselho: vá em frente!). Quem diz que seus anos de Letras foram um desperdício. Quem diz que os esquerdinhas acabam com a fama da FFLCH (embora ela seja superreconhecida pela pesquisa – e vamos nos lembrar que grande parte dos professores é de esquerda). Quem reclama dos grupos de encontro das minorias, porque isso já é assunto superado. Quem diz que tudo bem protestar, mas não vale fazer greve. Quem reclama da greve, mas se beneficia de bolsas de estudos e contratações de professores.

Se essa é a FFLCH que vocês construíram como sua, é bem feito que vocês sejam chamados de maconheiros, vagabundos e esquerdopatas, porque vocês merecem. Agora, se a sua FFLCH lhe fez amadurecer, desenvolver posições políticas, conhecer outras realidades e apoiar pessoas que ou não fazem mal a ninguém, ou lutam pelo direito de todos, a sua FFLCH é a minha e a gente se orgulha muito dela.

As não tão belas letras

Ontem acabei de corrigir uma porrada de redações. Apesar de gostar muito disso, sempre aparecem aqueles textos com alto teor de rasgabilidade, como diria o não saudoso Tite (amig@ retardatári@: eu realmente espero que, no momento em que você estiver lendo esse post, o Corinthians já esteja com um técnico de verdade).

De qualquer forma, é possível dividir as redações em algumas categorias: as boas com letra boa, as boas com letra ruim, as médias com letra boa, as médias com letra ruim, as ruins com letra boa e as ruins com letra ruim. Gente, fica a dica: só pode ter letra ruim quem tem ideia boa; caso contrário, a correção vira um martírio.

Quando eu pego uma redação com letra ruim, ou rola dó, ou rola raiva. Tem gente que tem a letra ruim mesmo, que deve ter tanta dificuldade em segurar um lápis que parece que está segurando uma colher e mexendo uma panela. Nesse caso, rola o maior dó.

Agora, quando me aparecem aquelas redações com rabinho de ‘s’ na outra linha ou letra com 1 milímetro, aí eu viro o cão raivoso.

Fica a dica de novo: se você tiver um dos tipos de letra que vêm a seguir, volta pra caligrafia.

– Letra com rabicho na linha de baixo:

Tem um povo que parou no barroco e acha que isso é avanço de vida. Quando vai desenhar, não consegue simplificar o desenho e fazer bonecos de palitinhos. Essas pessoas precisam fazer sorriso, bracinhos pra trás, sobrancelha. O desenho fica um tédio. Quando esses seres resolvem escrever, não veem a escrita como algo utilitário: são daquela tradição de que um texto é apenas expressão de sentimentos. Aí vem o salto genial: ‘espera aí… eu posso mostrar como eu sou uma pessoa sensível com a minha letra’. E dá-lhe cagada. Pra falar a verdade, essa letra não é ilegível, mas é chata pra porra.

Nota de chatice:5; Padrão sensível de letra chata.

– Letra redondinha, não tão pequenininha.

Se no caso da letra anterior a pessoa vive num mundo barroco, nessa letra aqui o o que predomina é o rococó. Quando esse tipo de gente desenha, rola mão rechonchuda (e sempre o dedinho fica maior que o dedo médio), orelha (porque elas são perfeccionistas), dentes, pupilas, e por aí vai, até o bonequinho ficar parecendo um jumento com mãos. É tosco, muito tosco. Sabe, essa letra é o “pônei maldito” da caligrafia: rosinha, fofuchinha, miguxinha. Se fosse chutar, diria que as pessoas que têm essa letra são as que usam folhas do ursinho Pooh, da Capricho, das meninas super-poderosas ou qualquer uma que tenha no mínimo uma borda colorida com desenhos. Detalhe: essas pessoas não estão mais na 7a. série; elas usam essas folhas pra valer.

Nota de chatice: 10; Padrão fofura de letra chata.

– Letra com o ‘t’ cortadérrimo:

As pessoas com essa letra se consideram tão gênias que nem têm tempo pra cortar o maldito do ‘t’. É bem mais fácil passar um riscão e cortar ‘t’, ‘l’, ‘d’, ‘f”, o baile todo, em suma. Além disso, quem escreve assim se acha tão fodão, acha que o conteúdo do texto é tão bom que, no fundo, é um favor que ele faz a quem está lendo. E como não pensar assim? Ele cita Prost, Baudelleire, Vitor Hugo; Dostoieviski, Tolstoy; Shaekespere, Dikens. Ele só não cita José Alencar, Jorge de Amado e Mario Vargas Lorca, porque isso é literatura muchacha. E de tão fodão que ele é não há nenhum problema em errar os nomes; assim como quem lê é privilegiado, quem é citado tem de se sentir honrado.

Nota de chatice: 7; Padrão blasé de letra chata.

– Letra que ocupa a linha toda:

De todas as letras que apareceram ou vão aparecer nesse post, essa aqui é a mais problemática. Quem escreve assim deve ser exagerado e controlador. Se eu fosse chutar, diria que a pessoa também fala alto, faz muito barulho, anda nos calcanhares. Quem faz isso quer se impor pelo exagero. Vamos combinar: é um porre ter de desvendar se o que foi escrito é uma junção de ‘b’ e ‘f’, se é só um ‘f’. E para o corretor é um saco ter de procurar os espacinhos entre as palavras ou os os vazios da letra ‘a’ pra fazer comentários, já que o resto da linha está bombardeado pela escrita. Então, se você tem essa grafia,  recomendo sinceramente que procure um psicólogo (se você for meu amigo, estiver lendo e escrever assim, esqueça o conselho!)

Nota de chatice: 9; Padrão controlador de letra chata.

 – Letra miudinha:

Essa letra é o oposto da anterior; pra cada 0,8 cm de linha, a pessoa ocupa 0,1 com a palavra. E você, corretor, depois de corrigir 100 redações, estando com a vista cansada, tem de quase focinhar esse texto pra ver se entende alguma coisa. Verdade é que quando eu estava na escola, minha letra era esse cocozinho. Em provas de história e literatura, era certo que ia sair esse cagagésimo de letra. Mas como não usá-la? O que eu tinha a dizer, apesar de o professor já ter visto em 300 provas a mesma ladainha, era muito importante. Aprendi corrigindo que o importante é ser objetivo (Não que hoje eu seja objetiva, mas pelo menos nenhum professor vai ter de se afastar da faculdade por vista cansada devido à minha letra).

Nota de chatice: 6; Padrão prolixo de letra chata.

Nota: Fica aqui a menção honrosa à letra “Pra que vogal?”; quem assim escreve, não diferencia ‘a’ de ‘o’, ‘e’ de ‘i’, ‘u’ de ‘o’. É tudo farinha do mesmo saco.

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As imagens desse post ou são redações disponibilizadas pela Fuvest, ou são belezinhas que eu mesma tentei recompor, embora não esteja tão bom quanto eu gostaria. Pra quem pensou que eu tirei foto das redações (sim, pode acreditar – houve quem pensasse isso), duas considerações: 1) eu não sou tão antiética; 2) vocês realmente acham que apareceriam tipos de queijo em um tema?

Happy birthday to…?

Aniversário, teoricamente, é a SUA data. Teoricamente, porque esse não é o meu caso. Nasci no dia 30 de dezembro, um dia antes da festa de Ano Novo. Uma merda, basicamente. Além de fazer a coitada da minha mãe passar o Reveillon de 1987 na Maternidade (o que, sejamos sinceros, é um castigo por me conceber em pleno dia 30), a frase que mais escuto no meu aniversário é:

– Parabéns! Onde você vai passar o Ano Novo?

A verdade é que meu Ano Novo tem duas direções:

1) Minha família em São João del Rei.

2) Minha sogra e toda sua preocupação com o Ano Novo.

Verdade seja dita: por incrível que pareça (e por eu ser uma nora memorável), minha sogra é ótima para aniversários. Uma vez até encomendou um bolo de chocolate pra mim. DE CHOCOLATE! (com morangos, pra fazer inveja).

Ok, o texto não é sobre minha sogra. Talvez seja sobre o meu padrão de achar que um baita aniversário seja sinônimo de bolo de chocolate.

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Acho que esse é um trauma que levo. Desde o jardim da infância, tava todo mundo de férias no meu aniversário. Tinha menininho que levava a tchurma pro Mc Donalds, menininha que fazia festinha no Buffet, e eu sempre em Minas, comendo lasanha no meu aniversário e descobrindo os planos da minha família pro Ano Novo.

Em 2000, meus pais resolveram inovar e comemorar meu aniversário no dia 31 de dezembro, junto com o Reveillon. Foi num ‘sítio’ (mais pra uma roça). Eu me lembro bem – ganhei exatos DOIS presentes (uma blusa branca e um creme pro corpo  – eu tinha 12 anos!). Acabou a luz, ninguém se importava com minha caixa linda de bolo a não ser eu mesma e minhas duas amigas convidadas.

O sucesso do meu Ano Novo/ Aniversário acabou com a descoberta de que sapos não se desfazem com um punhado de sal e minha mãe gritando pra eu dormir. Essa é a imagem que levo de aniversários, tanto que, desde que eu mesma decidi  minhas comemorações, o cenário não mudou muito:

1) Em 2008, eu comemorei no “Cantinho da Canja”, em São João del Rei. O lugar era muito tosco, mas a cerveja era barata. Achei espetacular até descobrir que um amigo meu teve notícias de rato no local. Aliás, mais de um amigo meu. Quem me conhece, sabe que eu piso em baratas, cuspo ao mesmo tempo e coço meu inexistente saco, mas que travo e choro só de ver um rato (trauma de infância, assunto pra um outro post). O foda foi que até os ratos eram melhores que alguns convidados. Um sujeito praticante assumido de RPG amigo de um amigo meu resolveu aparecer e perguntar pra todos os convidados que animal eles seriam. Como ninguém respondeu, ele deu cinco minutos pra todos pensarem e voltou a perguntar. Todo mundo falou que seria ou um cachorro ou um passarinho e, evidentemente, ninguém perguntou que animal ele seria (todo mundo já sabia que era uma anta). Mas o paquitão resolveu falar mesmo assim que seria um leão. Sério, se eu quisesse responder isso, ia até o programa do Sílvio Santos e tirava pelo menos 100 reais.

Também tinha o irmão desse sujeito, que resolveu contar suas viagens e dizer que o tio dele era um poeta, que fez um poema assim (se alguém tiver enjoado, pare aqui):

– Soprei, soprei, soprei

Minha boneca inflável.

Também disse que que viajou pro Sul do país e fez uma escala no Tietê – colega, fica a dica: no Tietê o máximo que a gente faz é farofada. Escala é pra aeroporto, não pra rodoviária.

Achei o caos e quis mandar todos à merda, mas um anfitrião, mesmo no Cantinho da Canja, não pode fazer isso. Resolvi ir embora.

2) Ano passado trabalhei até o dia 30 de dezembro e ‘comemorei’ meu aniversário aqui em São Paulo. A indicação do lugar era a seguinte:

“Vira tal rua. Tá vendo um bar lindo, com janelas gigantes? Então, é o próximo. Isso, o do toldo vermelho”. As cadeiras eram ruins, os enfeites de Natal estilo Pernambucanas. Meus amigos foram embora cedo, menos uns quatro deles, que ficaram o resto da noite discutindo a diferença entre vergonha e ressaca moral enquanto eu dormia de bêbada. (No outro dia, fiquei em dúvida se tive vergonha ou ressaca moral).

***

Meu plano de vida é comemorar meu aniversário num barzinho, com pessoas legais convidadas por mim (que não me perguntem que animal eu seria – pra isso tem o Facebook). Pensando em todos os compromissos, acho que no dia 6 de março rola, a menos que seja Carnaval… Quem se habilita?

PS: Dica – se alguém perguntar que animal você seria, quem é seu super-herói favorito, se você é um lápis HB ou uma lapiseira Pentel, pra todas essas perguntas existe a mesma resposta: sua mãe!

Fanfarrão galeroso

Como todos sabem, especialmente quem foi à viagem de Ibiúna e presenciou meus gritos de apoio à Xuxa e de repúdio ao Mr. Burns, eu detesto o José Serra. Nunca gostei, mas minha raiva ficou mais forte por causa da greve da USP de 2007, quando o então governador criou decretos (na primeira semana de governo e durante as férias na Universidade, diga-se de passagem)  que feriam o tripé ensino-pesquisa-extensão e que prejudicavam a autonomia universitária, direito garantido pela Constituição. Um dos decretos promovia o aumento da pesquisa operacional, com viés mercadológico. Eu, FFLCH que sou, me senti ofendida, assim como muitos estudantes de Humanas que são completamente dependentes da regra de três e não têm campo para pesquisa mercadológica. Afinal, o número de bolsas destinadas a estudantes de Humanas diminuiria. Então o aluno de Letras que estuda a variação linguística entre comunidades do Sul e do Nordeste seria prejudicado, assim como o aluno de Ciências Sociais que deseja descobrir mais sobre a cultura de populações ribeirinhas, o aluno de História que estuda o que resta do Coronelismo em municípios do Brasil, o aluno de Jornalismo que gasta seus dias lendo jornais antigos a fim de estudar o Jornal do Brasil na época do regime militar, o aluno de Pedagogia que fica horas observando aulas para encontrar alguns problemas da educação pública. Nada disso importa, afinal não tem retorno mercadológico imediato; por mais que seja uma pesquisa voltada à sociedade, não traz lucro, e então pode ser descartada sem maiores dramas.

Além desse desmerecimento com a pesquisa não-mercadológica, um dos decretos do Serra instituiu o Pinotti como o dono da bola das estaduais: estava acima dos três reitores (de USP, Unicamp e UNESP), que por sua vez já eram bem alinhados ao pensamento do governador.

Também vale lembrar que, em junho de 2009, a Polícia Militar invadiu o campus Butantã da USP. Até então, a última vez que a Polícia tinha entrado na Universidade foi na ditadura militar. Os alunos protestavam contra a Universidade Virtual e fizeram o famoso, recorrente e querido piquete no portão principal; para acalmar a multidão, o Zé galeroso chamou seus amiguinhos, a PM. De um lado os estudantes jogavam flores de papelão, mas ninguém é idiota e ninguém apanha quietinho. Do outro lado, era bomba de efeito moral, tiro de efeito moral, gás de efeito moral, cacetete de efeito moral. Vale ler aqui o relato da Professora Adma Muhana.

Depois da greve de 2007 e da de 2009 (afinal os alunos pararam as atividades após a invasão da PM), sempre que eu vejo o Serra me dá ódio, principalmente quando ele acha que é do povo. Isso acontece inclusive quando vejo o Twitter do candidato, mas pelo menos em 140 caracteres o Zé coleciona pérolas geniais, é um verdadeiro fanfarrão!

1) “Deveria haver mais debates. São importantes. No segundo turno, com apenas dois candidatos, serão ainda melhores.” – Verdade, Zé, o bicho vai pegar em 2014!

2) “Quero dar as boas-vindas à minha mulher @monicaserra45 aqui no Twitter” – meu Deus! o Serra é casado com o Beiçola!

3) “Na Expocristã, acompanhei uma banda gospel com “Vai dar tudo certo”, de Waldecy Aguiar.” – #SerraéMenas, como diria @cleycianne, a Diva do Senhor.

4) “À noite fui concluir o tratamento do canal de um dente. Não é que ainda está doendo?” – Bate macumba, iê iê!!

5) “Sou como dizia a extraordinária Dorina Nowill: eu tenho uma mola embaixo de mim, quando algo me puxa para baixo, eu reajo para cima.” – Desculpa, mas não entendi muito bem onde fica a mola.

6) “De manhã, em Balneário Camboriú nem consegui fazer a caminhada, de tanta gente que me acompanhava. A solução foi subir em um trio elétrico.” – Quanto amor:

7) “@comfarpas Sou a favor da liberdade. Sempre. Abs.” – A única coisa que consegui entender é que o Serra usa absorvente (Abs.) Sempre Livre.

8) “Parabéns RT @jocapavesi  Serra, sei q vc é palmeirense, mas,pô,cadê nosso parabéns pelos 100 anos do coringão?Olhe q somos 30.000.000 tá bom?” – Significa!

9) “Ontem tive gravações até às 5hs da manhã. À tarde, reunião com mais de 480 entidades sindicais, de 26 estados :http://bit.ly/bTvRdd” – Agora tá eplicada a cara de vampiro.

10) “Hoje fui à Cidade Tiradentes, zona leste de SP, onde atuei muito como prefeito. http://bit.ly/avUGOG – Muitão, 2 anos no mandato!

11) “Certo @LeonardoParente, além de cartas, os nordestinos de SP podem mandar emails para os seus parentes do Nordeste pedindo voto pra mim, rs.” – Que tal ir pra lá, queridão?

12) “Hoje fui da estação Ana Rosa à Vila Prudente com os meninos do KLB.Há tanto tempo eu venho te seguindo, http://migre.me/17dPA– Ir de Corinthians-Itaquera à Sé ouvindo “A dor desse amor” o bonitão não quer.

13) “A Ruth Cardoso era fanática pelo Centro Cultural da Vila Nova Cachoeirinha. Visitava sempre. Por isso o CCJ ganhou o seu nome.” – Eu sou louca pelo Pacaembu e não sou casada com Tucano. Bota meu nome lá??

14) “Crime no RJ mostrou a urgência do que eu tenho dito: o governo federal tem que se jogar na luta pela segurança.http://migre.me/16vVE – Se joga, bee! Extravasa, libera e joga tudo pro ar!

15) “Desembarquei no RJ, vindo de Manaus, às 4 da manhã e não consegui me conectar ao Twitter, @denirothenburg. Deixe de procurar pêlo em ovo.” – Porra, o Serra nem tem um Blackberry!

16) “Na Bienal, tirei mais de 250 fotos. É um assessor que conta. O problema é que a maioria, ampla, era de corinthianos, depois, são paulinos.” – Por que, Serra, acha que Corinthiano é sujo e são-paulino, viado??

17) “Anunciei: como fazemos em São Paulo, onde dá muito certo, vamos entregar 3 livros gratuitos/ano em todo o Brasil a partir da quarta série.” – É mesmo, a educação em SP é boa pra caralho e ler três livros é uma média ótima!

18) “Alguém conseguiu ver a chuva de meteoros na madrugada passada?” – o Luan Santana conseguiu!

19) “Aécio: “coragem na vida pública é honrar compromissos com a população”. Boa!” – Boa mesmo, Serra! Muito boa!! Haha.

20) “Qdo assumi a prefeitura de SP, em 2005, jurei que transformaria as 2 maiores favelas – Heliópolis e Paraisópolis – em bairros. Deu certo!” – O máximo que ele conseguiu foi transformar Heliópolis e Paraisópolis em linhas de ônibus.

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Beijo, me liga, candidato!

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PS: O texto da Professora Adma foi retirado do blogapontodepartir.blogspot.com, da queridíssima Fê, a quem agradeço pela contribuição!

Centernada?

O ponto de vista constrói o objeto.


Pelo Corinthians, com muito amor, até o fim! Parabéns, Timão!

8 ou 80

Pra mim é tudo 8 ou 80. Ou eu amo ou eu odeio. Ou eu quero que a pessoa viva pra sempre ou que ela morra nesse exato instante. Ou eu quero morar em Honduras ou eu quero morar na Suíça. Ou eu quero comer chocolate ou (aí não tem ou).

Às vezes, esse meu julgamento muda em questão de minutos, às vezes nunca muda, mas é assim mesmo. O exagero faz parte da minha vida de tal modo que é comum até demais eu falar “A melhor coisa do mundo é quando aparece o cara das Casas Bahia na TV” ou “A pior coisa do mundo é a tinta da caneta falhar”. Também é pra lá de comum eu atribuir um caráter de sonho pra umas coisas imbecis. É claro que eu tenho os meus sonhos de verdade, mas os coitadinhos acabam por entrar na mesma lista das vontades mais do que momentâneas e mais do que idiotas, afinal eu falo como se elas fossem sonhos.  É nessa pegada que ser bem-sucedida profissionalmente, ter uma casa e dois filhos perfeitos que façam o trabalho doméstico se misturam com:

– Nascer piriguete;

Ser piriguete é um dom: ela nasce com um gene que não deixa o frio se apossar dela, e isso vem com mais de um bônus. No frio a gente come mais e acaba engordando. Piriguete não sente frio, não sente fome, não engorda. Piriguete também só precisa de um guarda-roupa primavera/verão (ainda que ele seja de extremo mau gosto), e ela nunca vai parecer um boneco de neve por estar com uma segunda pele, uma blusa de lá de gola alta, um cachecol de pompom, um casaco emborrachado com um capuz, que por sinal fica logo acima da toquinha preta com uma faixa branca na testa. Piriguete também não tem desconfiômetro, e dá os maiores foras, mas ok, qual é o problema disso? Ela não fica mal – é a gente que tem vergonha alheia, especialmente quando ela aparece com uma mini-saia branca, um tomara-que-caia ridículo e um piercing de lagartixa com strass. Mas ok de novo, mesmo assim ela tá pegando todo mundo.

– Ser homem;

Fala a verdade? Deve ser uma delícia tirar a camiseta quando tá 45º, poder mostrar uma barriga nada definida e, depois de se encher de cerveja, fazer xixi em pé. Deve ser ótimo não ter de se depilar, poder deixar uma barba e dizer que é puro estilo (quem vai dizer que uma axila peluda é estilo?). Deve ser ótimo nunca se preocupar com o que vestir e não ser apedrejado por isso. Deve ser uma maravilha não ter de fazer a sobrancelha. Sem contar as cólicas e o parto, que eles não fazem a menor ideia do que isso seja.

– Ser louca;

Brincou? Ter justificativa pra todos os seus atos deve ser genial. Por que ela virou a cara pra mim bem no meio da conversa? Ah, ela é louca. Por que ela bateu naquele cara na porta do ônibus? Ah, ela é louca. Por que ela gritou com o patrão? Ah, ela é louca. Por que ela roubou o “Alpino” daquele garotinho? Ah, ela é louca.

– Fazer imitações que nem o Adnet;

Juro, nem o Maluf eu sei imitar. O meu Sílvio Santos, coitado, parece o Pato Donald, que por sua vez parece o R.R.Soares. A única coisa que eu sei imitar é a Janice, de Friends, e vamos combinar que isso não é orgulho pra ninguém.

– Ser rainha da Inglaterra e usar um chapéu diferente por dia.

Não sei por que eu quero isso, mas deve ser de boa. Um chapeuzinho aqui, um chazinho acolá, um vestidinho dali, e assim a gente vive. Se tiver um problema político, é só deixar que o primeiro-ministro resolve, e tudo continua igual: um chapeuzinho aqui, um gastinho exorbitante do estado acolá…