Saramago

De longe Saramago não é meu escritor favorito e nem vai se tornar, apesar de gostar do que li dele. Também não é porque ele morreu que vou começar a ler nesse exato momento um livro seu. Não vou cair nessa exploração comercial que as livrarias impõem às pessoas: reorganizaram as prateleiras no mesmo dia em que Saramago morreu para alavancar as vendas, fingindo se tratar de homenagem o que no fundo é um interesse econômico. Não aguento a mistura de capital econômico e capital cultural.

Ainda assim, Saramago sempre vai ficar em minha memória por causa disto:

“Tanto mar” (versão original) – Chico Buarque

Sei que está em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto de jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

***

Essa música de que eu tanto gosto faz referência à Revolução dos Cravos, que aconteceu em 74 – na mesma época, o Brasil vivia em plena ditadura. Ainda que essa revolução tenha sido um golpe militar, ela acabou com 32 anos de regime ditatorial em Portugal ao depor Marcelo Caetano.

Se ditadura sempre é burra, imagine a portuguesa. De 1932 a 1970, Salazar era o tirano da vez. Quando morreu (ao cair de uma cadeira, diga-se de passagem), Marcelo Caetano foi o responsável por continuar a ditadura – era o regime salazarista sem Salazar. Em 1974 aconteceu a Revolução dos Cravos, que depôs M. Caetano de forma pacífica. Os soldados pró-revolução carregavam cravos nos canos das armas, os manifestantes jogavam tais flores nos militares  pró-salazarismo.

O que gosto nessa revolução é o fato de Portugal ter conseguido a reforma agrária e, mais do que tudo, de ter instaurado um feriado em homenagem à Revolução – 25 de Abril, quando se comemora o “Dia da Liberdade”.

Essa data foi lembrada pelo Partido Comunista Português, do qual Saramago fazia parte desde 1969:

“Construtor de Abril, enquanto interveniente activo na resistência ao fascismo, ele deu continuidade a essa intervenção no período posterior ao Dia da Liberdade como protagonista do processo revolucionário que viria a transformar profunda e positivamente o nosso País com a construção de uma democracia que tinha como referência primeira a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.”

Saramago fica na minha memória por fazer parte de um movimento que culminou no “Dia da Liberdade”, e isso é insuperável.

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Uma resposta para “Saramago

  1. “Se ditadura sempre é burra, imagine a portuguesa.”
    HAHAHA gente, morri de rir XD
    mas piadas à parte, gosto muuito dessa música do Chico 🙂 não posso dizer o mesmo do saramago… tentei ler, mas meo, ele só me convenceu de que, se a pontuação existe, ela precisa ser usada. XD sério, perdi a paciência em dois capítulos.

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