chatice.ppt

Meu e-mail é uma baderna, resquício da época em que eu, inspirada pela Nathália, resolvi me inscrever em qualquer promoção. Quer dizer, em quase todas; diferentemente da Nathália, que às vezes aparecia com ingressos pra shows daquelas duplas sertanejas iguais, tipo Fernando e Sorocaba, eu me inscrevia em promoções “boas” (a outra diferença é que eu nunca ganhava). A porcaria toda foi que meu e-mail caiu na rede, e comecei a receber newsletters de qualquer lugar: “No embalo”, “Cayla Karena” (seja lá o significado disso).

A prova do lixo digital que é meu e-mail

Ainda que minha caixa de mensagem seja essa fanfarra, nada consegue me deixar mais irritada do que um mero e-mail… da minha mãe.

***

Minha mãe tem uma mania muito irritante de achar que seus conselhos não podem ser só falados, mas mostrados. Além disso, ela tem umas cismas muito chatas – a principal delas é sobre relacionamentos amorosos. Segundo certas revistas femininas, deve-se manter mistério no relacionamento, e ela então fica martelando que a mulher deve ter um “véu”, uma nuvem em volta de si. Juro que assim que ela fala em véu eu me lembro de uma burca e não adianta: nada mais do que minha mãe falar vai fazer sentido. Nesse ponto, chega a hora de mostrar como a teoria dela é brilhante e embasada cientificamente e ela me aparece com a tal revista. Sempre finjo que vou ler, às vezes até leio o primeiro parágrafo, mas me canso com aquelas baboseiras.

Pensando em como eu vou ler essas tranqueiras, ela decidiu utilizar uma forma muito dinâmica, com som e imagem, da qual é impossível não gostar – o power point. O legal é que as amigas dela também amam a interatividade do power point e enchem o e-mail da minha mãe com apresentações em ppt.

Assim que ela criou um e-mail e aprendeu a mexer nele – com uma diferença temporal bastante considerável, como acontece com todas as mães -, ela resolveu compartilhar as gotinhas de sabedoria  comigo.  Cansei de receber mensagens inverossímeis do tipo “13 passos para ser feliz, por Nietzsche”, ou “Viva a vida intensamente”, de Manuel Bandeira. Sem contar as correntes, que dispensam comentários.

Demorou pra ela assimilar que eu odeio esses e-mails. Tentei fazer com que ela entendesse que, pra minha caixa de mensagens, só piada – e se ela for boa. Mas daí era pedir demais. Agora minha mãe manda apenas o que considera importante, e isso é um problemão. Ou vem breguice, ou vem Datena.

Minha mãe é a rainha de mandar e-mails com o assunto “CUIDADO”. Em seguida vem um caso isolado, mais ou menos assim:

Você que gosta de futebol deve ficar atenta. Fiquei sabendo que os goleiros estão matando as mulheres morenas que querem ter filhos.

Ok, esse é um exagero, mas é mais ou menos o que eu recebo. Minha mãe não perdeu tempo inventando a história, mas por que não repassar essas mensagens que são verdadeiros serviços à sociedade?

Quanto à breguice, dias desses recebi um e-mail com o título “O que a escola não ensina”. Sabe aquelas apresentações em power point em que uma letra aparece de cada vez e uma musiquinha chata acompanha os slides. Ah, me esqueci das lindas fotos de animais, de flores, de paisagens bonitas – se a mensagem for positiva – ou ainda gotas escuras, céus fechados, tempestades – se a mensagem for mais séria.

O e-mail que recebi tinha todos esses elementos. Antes de abrir a apresentação, tinha um recadinho da minha mãe: “Por favor, leia até o fim”. E o pior é que eu li aquela merda. Falava sobre uma palestra do Bill Gates para estudantes, e como ele contou que a vida é difícil, que o primeiro salário é baixo, que os chefes geralmente não são bonzinhos. Tocante esse e-mail.

Pior foi um outro, e acho que esse me deu mais raiva: “O que Oprah tem a nos dizer”. Peraí, nos dizer? Me inclua fora dessa. Se eu quiser ouvir Oprah, eu assisto ao programa dela, mas eu não quero. Daí ela me vem com as baboseiras por e-mail? Li três frases e deletei na hora.  

Fica a dica pra qualquer pessoa que mande esse tipo de mensagem: é melhor mandar e-mails do tipo “O que Márcia Goldschmidt tem a nos dizer”  . Pelo menos ia rolar um quebra-pau, beem mais divertido. Ah, e pode até ser em ppt.

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2 Respostas para “chatice.ppt

  1. Ah, eu não reclamo dessas correntes porque minha mãe desistiu de mandar pra mim! =]
    Mas SEMPRE recebo aquelas coisas fofas e animadas com anjos e crianças brincando com cachorros… e sempre a pessoa coloca um ‘Fê, pra você, que gosta de poesia!’
    Tenho pena do Pessoa, do Drummond, da coitada da Clarice, que sempre são colocados nessas coisas!

    Amei o texto, Dé!
    beeijo

  2. haha naaada mais brega do que um ppt, e nem é aquele brega legal do qual comentamos ontem – tipo, me manda o link do clipe Festa no Apê mas não me manda ppt! haha adorei o blog Dé, muito divertidas suas histórias 🙂
    beijo!

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