As não tão belas letras

Ontem acabei de corrigir uma porrada de redações. Apesar de gostar muito disso, sempre aparecem aqueles textos com alto teor de rasgabilidade, como diria o não saudoso Tite (amig@ retardatári@: eu realmente espero que, no momento em que você estiver lendo esse post, o Corinthians já esteja com um técnico de verdade).

De qualquer forma, é possível dividir as redações em algumas categorias: as boas com letra boa, as boas com letra ruim, as médias com letra boa, as médias com letra ruim, as ruins com letra boa e as ruins com letra ruim. Gente, fica a dica: só pode ter letra ruim quem tem ideia boa; caso contrário, a correção vira um martírio.

Quando eu pego uma redação com letra ruim, ou rola dó, ou rola raiva. Tem gente que tem a letra ruim mesmo, que deve ter tanta dificuldade em segurar um lápis que parece que está segurando uma colher e mexendo uma panela. Nesse caso, rola o maior dó.

Agora, quando me aparecem aquelas redações com rabinho de ‘s’ na outra linha ou letra com 1 milímetro, aí eu viro o cão raivoso.

Fica a dica de novo: se você tiver um dos tipos de letra que vêm a seguir, volta pra caligrafia.

– Letra com rabicho na linha de baixo:

Tem um povo que parou no barroco e acha que isso é avanço de vida. Quando vai desenhar, não consegue simplificar o desenho e fazer bonecos de palitinhos. Essas pessoas precisam fazer sorriso, bracinhos pra trás, sobrancelha. O desenho fica um tédio. Quando esses seres resolvem escrever, não veem a escrita como algo utilitário: são daquela tradição de que um texto é apenas expressão de sentimentos. Aí vem o salto genial: ‘espera aí… eu posso mostrar como eu sou uma pessoa sensível com a minha letra’. E dá-lhe cagada. Pra falar a verdade, essa letra não é ilegível, mas é chata pra porra.

Nota de chatice:5; Padrão sensível de letra chata.

– Letra redondinha, não tão pequenininha.

Se no caso da letra anterior a pessoa vive num mundo barroco, nessa letra aqui o o que predomina é o rococó. Quando esse tipo de gente desenha, rola mão rechonchuda (e sempre o dedinho fica maior que o dedo médio), orelha (porque elas são perfeccionistas), dentes, pupilas, e por aí vai, até o bonequinho ficar parecendo um jumento com mãos. É tosco, muito tosco. Sabe, essa letra é o “pônei maldito” da caligrafia: rosinha, fofuchinha, miguxinha. Se fosse chutar, diria que as pessoas que têm essa letra são as que usam folhas do ursinho Pooh, da Capricho, das meninas super-poderosas ou qualquer uma que tenha no mínimo uma borda colorida com desenhos. Detalhe: essas pessoas não estão mais na 7a. série; elas usam essas folhas pra valer.

Nota de chatice: 10; Padrão fofura de letra chata.

– Letra com o ‘t’ cortadérrimo:

As pessoas com essa letra se consideram tão gênias que nem têm tempo pra cortar o maldito do ‘t’. É bem mais fácil passar um riscão e cortar ‘t’, ‘l’, ‘d’, ‘f”, o baile todo, em suma. Além disso, quem escreve assim se acha tão fodão, acha que o conteúdo do texto é tão bom que, no fundo, é um favor que ele faz a quem está lendo. E como não pensar assim? Ele cita Prost, Baudelleire, Vitor Hugo; Dostoieviski, Tolstoy; Shaekespere, Dikens. Ele só não cita José Alencar, Jorge de Amado e Mario Vargas Lorca, porque isso é literatura muchacha. E de tão fodão que ele é não há nenhum problema em errar os nomes; assim como quem lê é privilegiado, quem é citado tem de se sentir honrado.

Nota de chatice: 7; Padrão blasé de letra chata.

– Letra que ocupa a linha toda:

De todas as letras que apareceram ou vão aparecer nesse post, essa aqui é a mais problemática. Quem escreve assim deve ser exagerado e controlador. Se eu fosse chutar, diria que a pessoa também fala alto, faz muito barulho, anda nos calcanhares. Quem faz isso quer se impor pelo exagero. Vamos combinar: é um porre ter de desvendar se o que foi escrito é uma junção de ‘b’ e ‘f’, se é só um ‘f’. E para o corretor é um saco ter de procurar os espacinhos entre as palavras ou os os vazios da letra ‘a’ pra fazer comentários, já que o resto da linha está bombardeado pela escrita. Então, se você tem essa grafia,  recomendo sinceramente que procure um psicólogo (se você for meu amigo, estiver lendo e escrever assim, esqueça o conselho!)

Nota de chatice: 9; Padrão controlador de letra chata.

 – Letra miudinha:

Essa letra é o oposto da anterior; pra cada 0,8 cm de linha, a pessoa ocupa 0,1 com a palavra. E você, corretor, depois de corrigir 100 redações, estando com a vista cansada, tem de quase focinhar esse texto pra ver se entende alguma coisa. Verdade é que quando eu estava na escola, minha letra era esse cocozinho. Em provas de história e literatura, era certo que ia sair esse cagagésimo de letra. Mas como não usá-la? O que eu tinha a dizer, apesar de o professor já ter visto em 300 provas a mesma ladainha, era muito importante. Aprendi corrigindo que o importante é ser objetivo (Não que hoje eu seja objetiva, mas pelo menos nenhum professor vai ter de se afastar da faculdade por vista cansada devido à minha letra).

Nota de chatice: 6; Padrão prolixo de letra chata.

Nota: Fica aqui a menção honrosa à letra “Pra que vogal?”; quem assim escreve, não diferencia ‘a’ de ‘o’, ‘e’ de ‘i’, ‘u’ de ‘o’. É tudo farinha do mesmo saco.

***

As imagens desse post ou são redações disponibilizadas pela Fuvest, ou são belezinhas que eu mesma tentei recompor, embora não esteja tão bom quanto eu gostaria. Pra quem pensou que eu tirei foto das redações (sim, pode acreditar – houve quem pensasse isso), duas considerações: 1) eu não sou tão antiética; 2) vocês realmente acham que apareceriam tipos de queijo em um tema?

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