Sobre a FFLCH

Às vezes eu fico de saco cheio de ir pra USP. Muitas vezes falto nas aulas. Não sei quantas vezes já amaldiçoei as pessoas da Letras e da FFLCH. A diferença é que as pessoas da minha faculdade que eu não suporto não são as mesmas que os “homens de bem” não aguentam; e aqui digo com o maior orgulho: nunca vou me enunciar como uma “cidadã de bem”.

 Não me incomodo com os maconheiros. Eles ficam no canto deles, não enchem o saco de ninguém. Não, pais de família, eles não vão oferecer maconha pro seu filho. Eles não vão corromper seu pupilo.

 Não me incomodo com os participantes do movimento estudantil, e, muito timidamente, é bem verdade, apoio-os. Em todos os meus anos de FFLCH, nunca vi uma decisão de greve ser desnecessária. Além disso, só se decide por greve quando não há mais opções. E disso vocês não sabem, “homens de bem”, porque vocês não comparecem às suas assembleias e nem conhecem seus Centros Acadêmicos.

 Não me incomodo com os funcionários grevistas, bastante concentrados no nosso prédio.  Não me incomodo com Brandão, com Tia das greves, com qualquer “baderneiro” que possa aparecer. Só quem participa de greves sabe como é penoso e cansativo o processo.

Não me incomodo em ficar sem bandejão, biblioteca e circular quando há greves. Porque isso é bônus pra mim, classe média. Se algum amigo que realmente (e pensem no significado de realmente) necessitasse deles fosse contra, talvez repensasse minha postura. Mas quem fica contra são aqueles que têm condições de comer na lanchonete de sua própria unidade, que nem circular usam, que têm condições de comprar/ xerocar livros.

Não me incomodo com o DCE (Diretório Central dos Estudantes) e com o CAELL (Centro Acadêmico). Posso divergir de algumas opiniões de seus membros, da linha seguida por uma gestão, mas reconheço que nada é mais importante do que estas entidades estudantis.

Aliás, não me incomodo com grupos de minoria lutando por seus direitos. Feministas, negros, homossexuais, todos têm espaço no nosso prédio. Claro que sempre tem os Monteirinhos Lobatos falando que são feminazis, gaystapo e ditadura negra. Mas tudo bem, eles até suportam porque isso é como um fardo pro homem branco.

E quando eu digo “não me incomodo”, o que eu realmente quero dizer é que eu gosto muito de todos esses grupos. Todos eles constroem uma FFLCH aberta, plural. Se você entrou na FFLCH de uma maneira e está saindo do mesmo jeito, provavelmente não gosto de você. Porque inclusive quem já entrou na FFLCH politizado sabe que mudou, sabe que amadureceu. E se você acha que continua o mesmo, não aprendeu nada com a FFLCH, e você me incomoda.

Também muito me incomoda quem encara a FFLCH como escola de línguas, e ainda acha ruim professor ser politizado. Quem chora porque atravessou a cidade e o professor não foi, e nem teve a consideração de mandar um aviso dizendo que estava doente. Quem diz que prefere a UNIP à USP por causa das greves (conselho: vá em frente!). Quem diz que seus anos de Letras foram um desperdício. Quem diz que os esquerdinhas acabam com a fama da FFLCH (embora ela seja superreconhecida pela pesquisa – e vamos nos lembrar que grande parte dos professores é de esquerda). Quem reclama dos grupos de encontro das minorias, porque isso já é assunto superado. Quem diz que tudo bem protestar, mas não vale fazer greve. Quem reclama da greve, mas se beneficia de bolsas de estudos e contratações de professores.

Se essa é a FFLCH que vocês construíram como sua, é bem feito que vocês sejam chamados de maconheiros, vagabundos e esquerdopatas, porque vocês merecem. Agora, se a sua FFLCH lhe fez amadurecer, desenvolver posições políticas, conhecer outras realidades e apoiar pessoas que ou não fazem mal a ninguém, ou lutam pelo direito de todos, a sua FFLCH é a minha e a gente se orgulha muito dela.

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33 Respostas para “Sobre a FFLCH

  1. Sou da Letras e concordo com tudo, exceto o fato de cruzar a cidade e chegar à faculdade e descobrir que o professor não foi. Sempre acharei isso mancada.

    • Fernando, quando o professor simplesmente não vai, concordo que os alunos fiquem putos. Mas tem muita gente que reclama quando o professor falta por motivo de doença, e aí é de lascar.

  2. Excelente! Concordo com tudo! Sou da Geografia e praticamente tudo também se aplica lá.

  3. Excelente! Irretocável! Traduziu com perfeição o que muitos sentem ao verem, mais uma vez, nossa querida “favelech” sendo atacada pelo que há de mais retrógrado em nossa sociedade.

    Valeu!

  4. Lindo!!!!! Sou da Letras e antes de ser dela era da FFLCH, meu irmão fazia geografia lá…

    Estou mudando para Pedagogia pois não me identifiquei com o curso de Letras…Mas sempre serei FFLCHiana…. o/

  5. Texto irrepreensível.

  6. Parabéns! Sinto a mesma gratidão pela FFLCH, por todo o aprendizado que se dispôs a me dar e sem preconceito algum. Tenho orgulho de lá!

  7. Apesar de ter tido já meus arranca-rabos com alguns alunos e tudo o mais, amo os professores, até a Márcia Regina Berbel (História Ibérica) que me perseguiu até a morte hahahaha. O que você disse no seu texto é como se fosse o que ecoa na minha mente quando sinto saudades da faculdade e dos meus amigos que ficaram lá, no caso, aí. Você me fez chorar igual um neném.

  8. Text sensacional.

    Assino embaixo!

  9. Pingback: Débora Shinohara: | Viomundo - O que você não vê na mídia

  10. Parabéns pelo texto, Déborah! Li no “Viomundo”. Me formei em Letras (Italiano/Português), na USP, as memórias que tenho de lá estão entre as melhores da minha vida (por enquanto, ainda pretendo viver muito!:))! Saí outra pessoa de lá, sim. Mais humana, solidária e amorosa. Parabéns a você e a todos que continuam resistindo e mantendo a pluralidade da FFLCH, apesar da truculência de quem não suporta a diversidade do mundo! A “tia” está orgulhosa de vocês!*rs* 😉

  11. Parabéns Débora, por seu bonito texto.
    Fui FFLCH/ LETRAS no mestrado e doutorado, quando lá cheguei tinha 30 anos, já estava na sala de aula, como professora, há um bom tempo. Vinha curtida da luta estudantil e sindical, no entanto aprendi muito lá, não só estudar literatura ( eu que venho da História), aprendi muito sobre política, sobre como se tornar uma intelectual compromissada com o saber a serviço de todos, aprendi tbém, através de exemplos negativos, o que nunca devemos fazer em nossas carreiras acadêmicas se quisermos ser fiéis aos nossos princípios e valores.Fiz também grandes amigos entre os colegas da FFLCH, tanto entre os professores, como entre os alunos; amigos que serão para toda a vida. Enfim, a FFLCH faz parte do meu amadurecimento e é parte responsável do que sou hoje!!
    Lute e não desista, não deixe que a nossa FFLCH seja descaracterizada e destruída!!
    Um forte abraço.

  12. Gente, obrigada a todos pelos comentários, pela divulgação, pelo apoio. É muito bom ler relatos de gente que ainda está na faculdade, gente que já se formou, e perceber que a nossa FFLCH é eterna, por mais brega que isso possa parecer.
    Beijo.

  13. Disse o que queria dizer, principalmente me relação a nossa formação, e ao fato de conhecermos outras realidades, e a liberdade que há para todos mostrarem suas posições e discuti-las, permitindo que não sejamos os “homens de bem”.
    Muito legal!

  14. fui da história, de 85 a 90, e me orgulho muito de ter estudado na FFLCH…. o que vc escreveu se aplica a mim, sempre gostei daquela pluralidade e tolerância ali dentro…

  15. Só não entendi 2 partes:
    (1) O que significa não precisar de bibliotecas em época de greve? Mesmo quem possa xerocar e comprar livros para as leituras de aulas, evidentemente não conseguirá ter acesso a todos os materiais que a nossa biblioteca oferece (acredite, ela é bem boa!). E biblioteca para gente das Humanas é essencial para pesquisa.Afinal, a FFLCH não é só aulas. Então essa parte não fez sentido para mim.
    (2) Se o professor falta por motivo de doença, é evidente que isso é compreensível. Mas ao menos que ele tenha acabado de ficar doente, não custa muito mandar um email, avisar com alguma antecedência, não?

    • A questão não é sobre se importar ou não, o problema é discutir a validade ou não da greve por falta de biblioteca e bandejão, como tantos alunos fazem. Os alunos não sabem se o professor ficou doente naquele momento ou um ano antes, reclamam sem saber direito o que está acontecendo. Entendo que a blogueira quer ressaltar uma atitude mimada e reclamona de alunos que insistem em só olhar o próprio umbigo, não acho que ela queira ressaltar uma ou outra atitude, mas um conjunto de atitudes muito comuns em alguns alunos. Quanto à biblioteca, não acho necessário dizer o quanto ela é boa, especialmente com exclamações enfáticas, pois todos sabem disso.

    • Camila,

      Acredite, eu sei que a biblioteca é muito mais que “bem boa”. A nossa biblioteca é excepcional. Só gostaria de saber de que parte do texto você depreendeu que eu não sabia que a biblioteca era boa.
      De resto, o comentário do Ricardo responde suas dúvidas.

  16. Não depreendi de parte alguma que você a achasse ruim. E entendi o seu texto, o tom, o que quis ressaltar, e no geral, concordo com você.
    De fato, não ter biblioteca, pró-aluno, bandejão, circular não pode ser o ponto central de uma discussão sobre a validade de uma greve. O que eu quis ressaltar é que o argumento de que há alunos que não necessitam dessas coisas é falsa. Ou parcialmente. O que quer dizer “realmente” precisar, sabe? Entendi, ok, muita gente lá pode pagar as footcópias, as impressões, os jantares nos restaurantes que não RU. Mas não precisar de fato de biblioteca não faz sentido para mim. Não acho, como você bem argumentou, que esse tipo de discussão seja central. No entanto, quando uma greve de funcionários que não foi muito discutida entre estudantes se estende por semanas, essas coisas começam a fazer falta, afinal há cursos acontecendo, há vida acadêmica rolando. E muitas vezes as reivindicações dos funcionários não chegam a nós estudantes de maneira generalizada.

    Bom, quanto à biblioteca, fui enfática pois há muita gente – talvez as mesmas que reclamam na época de greve, sem ao menos tentar entender o porquê da paralisação – que reclama e não sabe seu valor.

    • A questão é que bandejão, circular e biblioteca são serviços que não deveriam ser paralisados em hipótese alguma. Mesmo que você não conheça ninguém que “realmente” precise deles (no sentido que você usou no post, Débora), a vida de muitos estudantes fica muito mais difícil em época de greve.

      E é natural — e nesse ponto concordo com Camila — que haja descontentamento por parte da comunidade acadêmica quando o acesso à biblioteca, principalmente, seja impossibilitado, por qualquer motivo. No entanto, esse descontentamento deveria ser direcionado ao governo estadual (presumindo que o recurso à greve seja, de fato, válido), por colocar entraves às negociações com as categorias e não repassar a verba.

      Já pensei até que seria melhor terceirizar logo esses serviços, mas nada impede que haja problemas com licitações, pagamentos atrasados, empresas pilantras etc., além de manipulação de funcionários terceirizados por parte dos sindicatos (não sejamos ingênuos, isso acontece). A própria comunidade da FFLCH conhece isso bem, basta ver o episódio da greve dos funcionários da limpeza, em abril deste ano.

      Se quisermos ter universidades brasileiras de ponta, o conhecimento deve estar acessível todo o tempo. Isso significa que aulas e bibliotecas, pelo menos, não deveriam parar nunca. Mas que os funcionários e professores tenham de recorrer a greves para reivindicar melhorias, em primeiro lugar, também é fato lamentável, e nós, estudantes, deveríamos mesmo ser solidários, ou pelo menos mais compreensíveis, quando isso acontece.

      Esse é um impasse do qual não vejo saída, mas é prova que o governo ainda não elegeu a educação como prioridade no nosso país, e todo mundo sai perdendo com isso.

  17. Arrasou no texto, Dé, concordo com praticamente tudo, vc sabe… e seu texto tá correndo pelo Face, vice? =) beijos

  18. Pena que só vc e meia dúzia pensam assim. A USP hj é um reduto conservador em que cada um só pensa em si próprio e dane-se o resto.
    Parabéns pela lucidez.

  19. Bando de maconheiros, vocês não sabem nada de cultura! Estão em um centro de estudo comunista que só é sustentado porque os politicos usam vocês para se elegerem. Vocês só estão aí porque querem dinheiro rápido, assim que conseguirem qualquer emprego por indicação, nunca mais vai pensar em USP ou qualquer sigla besta…. Acham que ficar se divertindo todo fim de semana, usar drogas e humilhar novos estudantes é ser alguem?.. ahaa, tomem vergonha na cara e admitem quenão passam de um bando de carentes que precisam de amigos para não se sentirem sozinhos, fazem o que os outros mandam fazer..são tudo carneiros, carneiro retardado que só segue as merdas que o outro merda faz… Vocês ocupam o lugar de quem merecia estar aí, dos pobres que não tiveram oportunidade e querem estudar e os que tem amor a cultura e ao estudo. Vocês são párias! Graças a deus esse mundo é controlado por judeus que impede babacas como vocês de chegarem ao poder…. vão no máximo encontrar um emprego médio e vão ser enterrados em gavetas para não ocuparem espaço de verdadeiros brasileiros que ganham pouco mais sabem discutir filosofia e politica, enquanto vocês discutem qual papel vão usar para enrolar fumo e quantos mexicanos vão morrer para que vocês fiquem “lesados” durante seus minutos de “não fazer nada”..Se eu fosse ditador, vocês estariam mortos!

  20. Puxa, a diversidade é a coisa mais mágica que temos na sociedade. O direito de lutar por melhorias é garantido na nossa constituição e a FFLCH tem todo o direito de defender a tolerância no campus. Os alunos também devem brigar para que a Polícia Militar saia daquela atitude truculenta típica da ditadura e trate os seres humanos com mais respeito, mas a própria FFLCH precisa fazer isso de outra maneira, pois essa atitude de ocupação feita por 300 alunos não reflete a maioria, nem mesmo dentro da própria faculdade, quanto mais na USP como um todo. Não reflete a diversidade de opiniões dentro da universidade. Vocês podem usar tecnologia para atingir mais pessoas e legitimar o seu protesto. Ocupar a reitoria é responder a uma PM dos anos 70 com atitudes anos 70. Modernizar-se vai fazer muito bem para a essência da FFLCH!

  21. Não sou da USP, mas apesar disto concordo com sua posição. Parabéns pela crítica!

  22. Parabens. Belo e raro texto. Temos assistido ha muitos ataques reacionarios e preconceituosos contra os estudantes da FFLCH.

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